DA FONTE E DOS BANHOS DE SANTA EUFÉMIA EM SINTRA - I

CAPÍTULO I - DAS DESCRIÇÕES ANTIGAS QUANTO À LOCALIZAÇÃO
Texto: Degraconis - Pesquisa: Sintra Subterrânea 
31.01.2012
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“Se descartou de favores e honras, retirando-se à Vila de Cintra, a fim de buscar alívio ao seu mal de lepra (já muito adiantado) no uso dos banhos, que há na serra, denominados hoje de Santa Eufémia[1].

Refere-se esta notícia ao arcebispo D. Luiz Coutinho, o qual terminou os seus dias no mês de Abril de 1453 em Sintra, porventura a pessoa cujos ossos se encontraram em 1830 no sobejamente conhecido “TÚMULO DOS DOIS IRMÃOS”  junto à actual rotunda do Ramalhão, aquando da sua abertura[2].

  Excerto do “O Panorama” e o “Túmulo dos dois irmãos”

Mas que banhos seriam estes que abade Castro e Sousa refere no artigo “Antigualha da Cercania de Cintra” publicado no periódico “O Panorama” de 1842, e ao qual Anselmo Braamcamp Freire tece algumas considerações[3] no “Brasões da Sala de Sintra” no século seguinte?

Olivados nos dias de hoje, seriam ainda no século XIX alvo de devoção popular, aos quais acorriam pessoas vindas das mais diversas localidades à procura de cura para as suas maleitas, tais eram as propriedades medicinais reconhecidas a essas águas curativas que brotavam da serra, então, no que era conhecido como a “Fonte de Santa Eufémia” e os seus banhos.

Levantada a pergunta a uns quantos Sintrenses quanto à localização dos banhos, poucos foram os que os souberam reconhecer[4] e, colocada a questão quanto à fonte, muitos foram aqueles que a confundiram com a que se encontra adossada à ermida de Santa Eufémia num pequeno nicho – onde esta inserido o painel de azulejos alusivo à lenda da santa – e da qual parece já há muitos anos não se lhe conhecer gota.



Esq.: Nicho da fonte junto à ermida. Centro: Ermida Stª Eufémia
Direita superior.: Imagem da década de sessenta publicada no blog do Caminheiro de Sintra.
Direita inferior.: Imagem do início do séc. XX

Não temos dúvidas de que os banhos dos quais se socorreu D. Luiz Coutinho para alívio das suas enfermidades sejam os que estavam associados com os da “Fonte de Santa Eufémia”, ou assim designados posteriormente[5], e que os ventos dos últimos tempos fizeram tão rapidamente a memória colectiva esquecer, se de facto as informações de Abade Castro e Sousa estiverem correctas.

Mas onde se localizaria de facto essa fonte secular – se não mesmo milenar – já que deixou de constar de qualquer mapa moderno e dos circuitos devocionais do povo?

Procurámos então, entre fontes escritas, informações que conduzissem à sua localização exacta[6] e que em simultâneo, porventura revelassem como se apresentaria a fonte no passado e, eventualmente, onde fosse possível recolher relatos miraculosos atribuídos a essas águas tão intimamente relacionadas com a fenomenologia religiosa.

Félix Alves Pereira, será o primaz dos excertos documentais que iremos abordar mesmo que se trate de um registo recente, mas a partilha de uma gravura da fonte feita pelo carvão do ilustre sintrense José Alfredo inserida na sua obra “Sintra do Pretérito” do ano de 1957, assim o merece. Não só no-la dá a conhecer, como também partilha notícias das lápides que nela se encontravam, não obstante já não se encontrarem no local no ano da publicação e da gravura duas das quatro lápides, segundo nota do editor. Originalmente foram estes artigos de Félix Alves “dados à estampa” no “Diário de Notícias” no decorrer da década de trinta, e só posteriormente compilados na obra citada.

"Sintra do Pretérito"

Se a valia de incluir na obra as inscrições das lápides é de superior interesse como documento histórico visto rarearem-lhe referências em literatura anterior ou mesmo posterior, e na actualidade não se conhecer o seu paradeiro, terá sido a inclusão no livro de duas plantas que dão a conhecer a configuração do espaço onde a fonte se inseria e do interior do habitáculo onde se promoviam os ditos banhos, que a eleva em importância. Voltaremos adiante ao tema das inscrições e da planta, confrontando-a com as nossas próprias medições actuais.

Quanto à sua localização informa-nos que quem “se afoitar, pois, à subida do píncaro em que está edificada a ermida de Santa Eufémia da Serra, não já pelo flanco meridional de rude e tortuoso piso, mas pela estrada que, desde S. Pedro, colmeia pacientemente pela encosta setentrional, encontra, quase no cimo, à esquerda, um atalho íngreme que o vai guiar à fonte de Santa Eufémia, e mais adiante determina o espaço como “pequeno recinto quadrado, aberto pelo lado do caminho e limitado, nos outros três lados, por paredes de suporte das terras superiores”.

Quem conheça estes antigos caminhos da serra de Sintra não terá dificuldade em localizar o sítio da fonte, e caso persistam dúvidas quanto aos elementos geográficos fornecidos, fazendo-se portador da gravura ilustrativa, dissipará por completo qualquer incerteza alcançado o local, mesmo apresentando-se actualmente bastante desfigurado em relação à romântica gravura.


Fonte de Santa Eufémia pelo José Alfredo -  Desenho de  1957

É inegável à gravura desenhada por José Alfredo a partilha do espírito romântico e bucólico de que a serra de Sintra se reveste, mas quanto mais não o seria de facto aos olhos dos nossos antepassados do século XIX, se acreditarmos no que nos passa da descrição das notas de António Cunha no “Cintra Pinturesca” de 1905, que tendo estado na fonte no ano de 1880 e lá voltado tempos depois diz-nos que “não, conserva já o pittoresco aspecto d’outros tempos, a fonte…e a sua minúscula casa de banhos”. 

"Cintra Pinturesca"

Não traça esta última obra o caminho que à fonte concederia acesso, mas depreende-se das suas palavras ficar na encosta logo abaixo dos “edifícios modernos”– designados como Cavalariças Reais[7] – e que hoje em dia se encontram em ruína. Por ironia do destino tornaram-se também eles próprios portadores do encantador aspecto que à fonte roubaram, ao retirarem-lhe os “alcantilados penedos que na encosta sobranceira à fonte se amontoavam”[8].



As ruínas das Cavalariças Reais - Foto do lado esq.: do inicio do séc. XX

Dos apontamentos que António Cunha havia tomado em 1880, quando de uma excursão pela serra, podemos colher descrição e medidas do local, ficando já aqui a parte que respeita ao adro da fonte:

Excerto do "Cintra Pinturesca" de 1905
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É de referir que nesta nota do livro – trata-se de uma longa nota de fim de livro – também não deixou de descrever alguns aspectos do seu património; cruz e lápides - e a este assunto em parte adiante voltaremos.

Um inquérito levado a cabo no séc. XVIII a nível nacional, e do qual resultaram 41 volumes escritos, com o intuito de se obter um maior conhecimento do território podemos ver referência à localização da fonte. Após registar a devoção que o povo tinha à Santa Eufémia da serra de Sintra, aonde “vem um sírio de devotos de Lisboa” e
 “está em huma pedra vestígio de huma pegada, que dizem ser da Sancta”, adianta-nos ainda que um “pouco afastada da dita ermida, para a parte do norte, se acha huma fonte pertencente à dita ermida; em cujas agoas se vem banhar vários enfermos, que por meio de sua virtude conseguem melhora de suas enfermidades”. Este inquérito nacional de 27 perguntas às diversas paróquias, viria a ficar conhecido como “Memórias Paroquiais de 1758” e o seu coordenador terá sido o Pe. Luís Cardoso[9].

Memórias Paroquiais de 1758
 São Pedro de Penaferrim
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Obviamente não se poderia deixar de inserir nestes excertos documentais o Visconde de Juromenha, e encetada vasculha minuciosa na obra “Cintra Pinturesca” de 1838 logradas foram as esperanças de se revelarem profícuas informações, tão somente repete o que já havia sido registado nas “Memórias Paroquias” anteriormente referidas.

Da mesma época e também do mesmo autor referido na abertura deste artigo é a obra “ Memória Histórica sobre a origem da fundação do Real Mosteiro de N. S. da Pena…”, mas nenhuma notícia conveniente ao tema colhemos.

Na segunda metade do século XX, na qual se verifica vertiginosa condenação da fonte ao abandono e esquecimento, vem ainda Mário de Azevedo Gomes, autor da “Monografia do Parque da Pena”,  publicado em 1960, dar indicações do local quando descreve a “Tapada do Forjaz”, na qual o insere, remetendo constantemente o leitor para a obra “Sintra do Pretérito” já por nós abordada.

"Monografia do Parque da Pena"

Do “Processo de Inventário de D. Fernando II” levantado no ano de 1886 e encontrando-se hoje no Tribunal da Boa Hora em Lisboa, e no qual se verifica  descrições rigorosas dos bens arrolados no inventário para efeitos de avaliação não consta descrição da fonte, mas é possível verificar ter sido esta adquirida em 1882 por D. Fernando II em escritura de aforamento à Câmara de Sintra em 29 de Março de 1882 e que tinha de foro 70 reis pelo Natal[10]. Já havia na década anterior adquirido outros terrenos na mesma zona[11]-

Para terminar este primeiro capítulo há ainda que apresentar os resultados obtidos da pesquisa levada a cabo em torno de alguns dos guias de Sintra[12] publicados desde o século XIX até à década de sessenta do século XX, altura em que cai em desuso o hábito de recolha de água pelos Sintrenses junto à Fonte de Santa Eufémia e bem como a sua procura para resolução de problemas de saúde.

De entre os “guias” consultados sobressaem: “Itinerário que os estrangeiros, que vem a Portugal, devem seguir na observação, e exame dos edifícios, e monumentos mais notáveis deste reino” de 1845 do abade Castro e Sousa, já previamente mencionado por via de outras obras suas dedicadas exclusivamente a Sintra; “Guia de Cintra, Collares e Arrabaldes” de ano incerto mas anterior a 1910, de J. Eusébio dos Santos; “Guia de Portugal” de 1924, de Raul Proença, “Guia ilustrado de Cintra e arredores – 2ª edição” do ano de 1928, de Nuno Catharino Cardoso, também autor do “Monumentos de Portugal – Cintra” do ano de 1930, “Roteiro Lírico de Sintra” de Oliva Guerra, edições e 1940 e 1967[13]; “Sintra e seus Arredores” de Simões Costa,  do ano de 1941,  Guia de Portugal Artístico – Sintra” por Robélia de Sousa Lobo Ramalho, do ano de 1945;“Monumentos e Edíficos Notáveis do distrito de Lisboa – Sintra, Oeiras e Cascais” da Junta Distrital de Lisboa, e “Sintra” da Colecção Turismo da autoria de Gonçalo de Santa Maria, ambos do ano de 1963.

Livros dedicados a Sintra

Desculpe-nos o leitor por tão exaustivo elencar de obras, mas assim foi decidido por forma a facultar a quem pretenda ajudar-nos na investigação, abreviar o despiste de obras que não trazem novidades ao tema em apreço, dado que apenas nos valeu as notícias que o Caminheiro de Sintra extractou da obra  “Sintra e seus Arredores” de Simões Costa do ano de 1941. 

“Sintra e seus Arredores”

Estamos em crer não se terem esgotado as descrições antigas da fonte e dos seus banhos, mas foram aquelas que nos foi possível recolher por agora, e se outras surgirem, aditaremos este artigo com as mesmas.
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Próximos capítulos
CAP. III - AS INSCRIÇÕES EPIGRÁFICAS 
CAP. IV - EM TORNO DA SUA ANTIGUIDADE
 CAP. V - DAS ÁGUAS MIRACULOSAS E DA SUA MINA

Para receber em pdf a publicação envie email para: sintra.subterranea@gmail.com

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1 comentário:

  1. Estive lá hoje, desconhecia totalmente este assunto e a sua existência, depois de algumas consultas concluo que irei de novo visitar este local.
    Gostei muito.
    Foi bom porque encontrei na Capela aberta.

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